Um pai sem a filha nos braços

Faltavam penas oito dias para Willian Fernandes, 30 anos, morador de Lauro Müller, comemorar o Dia dos Pais. O primeiro com a filha biológica, pois o sentimento de pai já compartilha com as duas enteadas: Beatriz, 5 anos, e Bianca, 3 anos. Porém, uma fatalidade interrompeu o sonho de ter a pequena em seus braços. O bebê faleceu ainda no ventre da mãe, Ana Paula de Oliveira Garcia, 22 anos.

A família acredita que houve negligência no atendimento prestado no Hospital Henrique Lage, de Lauro Müller. Porém, o médico responsável atestou insuficiência útero placentária e descolamento da placenta como a causa da morte, que, conforme o profissional, trata-se de um caso raro e sem possibilidade de constatação prévia. A direção da unidade hospitalar afirma que os profissionais que atenderam a paciente relataram versões condizentes e que uma investigação administrativa interna será instaurada para apurar o fato.

A segunda-feira

Fernandes relata que Ana Paula procurou o hospital na segunda-feira, dia 1. “Ela foi submetida ao exame de toque e estava com dois centímetros de dilatação. O médico plantonista optou por não realizar outros exames e ela foi liberada para retornar para casa”, narra. Conforme ele, Ana Paula também já havia procurado o hospital nos dias 27 e 29 de julho.

A terça-feira

Na terça-feira, dia 2, Ana Paula foi até o hospital novamente ao sentir dores na região do ventre. “Desta vez, ela passou a noite toda em observação. A enfermeira responsável por aquele plantão foi visitá-la somente na quarta-feira pela manhã e repassou ao médico que a Ana Paula teria dormido a noite toda quando, na verdade, ela passou a noite andando em função das dores”, conta Fernandes. A versão é confirmada por sua mãe, Maria Aparecida Fernandes Gomes, que permaneceu com a nora no hospital.

Ana Paula recebeu alta e retornou para sua casa, sendo solicitado que ela retornasse na segunda-feira, dia 8, para um possível agendamento do parto. “Eu já tive dois partos normais e alertei o médico de que não senti dor nenhuma neles. Em ambos os casos, eu cheguei ao hospital e ganhei os nenéns logo em seguida”, observa a jovem.

“Eu a senti pela última vez às 22h de sexta-feira”, relata mãe

A jovem conta que sentiu Ana Vitória mexer pela última vez na sexta-feira, às 22h. E, às 4h da madrugada de sábado, dia 6, foi para o Hospital Henrique Lage mais uma vez. O quadro havia se agravado, pois ela apresentava sangramento. “Durante o atendimento, os profissionais já não conseguiam mais ouvir o coração dela. A suspeita é de que estava morta”, revela.

Um doloroso trajeto

Não havia a possibilidade de realizar um exame de ultrassonografia em Lauro Müller. Por meio de um contato telefônico com o Hospital São Donato, de Içara,a jovem foi encaminhada para tal unidade. “Quando chegamos lá eles recusaram atendimento, alegando que seria necessária a apresentação da ultrassonografia para dar entrada. Fomos para Criciúma e ficamos 15 minutos parados em frente ao Hospital São José aguardando a possibilidade de atendimento. A enfermeira que nos acompanhava chegou a cogitar que a Ana Paula entrasse lá e alegasse que começou a sentir dores enquanto andava pela rua na tentativa de uma assistência. Nesse tempo, recebemos a ligação do médico que nos atendeu em Lauro Müller solicitando que fossemos até uma clínica de Nova Veneza”, detalha a avó do bebê, Maria Aparecida.

A triste constatação

E foi em Nova Veneza que veio a constatação: Ana Vitória não resistiu. Ana Paula regressou para Lauro Müller e, às 12h20min do dia 6 de agosto de 2016, foi realizado o parto normal por meio de indução. “Foi uma das cenas mais tristes da minha vida, ver eles trazendo a minha neta já sem vida e meu filho se desesperando ao vê-la”, recorda Maria Aparecida.

Segundo a família, às 18h a jovem foi liberada para retornar para casa. Três horas e meia antes, a filha havia sido sepultada no Cemitério Santa Bárbara. Na certidão de óbito consta insuficiência útero placentária e descolamento prematuro de placenta como as causas da morte. “A equipe que nos atendeu até perguntou se gostaríamos que uma necropsia fosse feita, mas que teríamos que arcar com os custos. Estou desempregado e ela também. Não tínhamos condições”, pontua.

“Ela era perfeitinha”, diz, emocionada, Ana Paula enquanto os olhos do companheiro ficam marejados. “Além de toda essa tragédia, nós ficamos revoltamos com a falta de preparo da equipe ao lidar com uma situação como essa. Extremamente abalada, minha nora não teve sequer um amparo de uma psicóloga”, protesta Maria Aparecida.

A família ainda critica a morosidade na disponibilização da certidão de óbito. “Eles falaram que poderíamos realizar o sepultamento que depois disponibilizariam o documento”, conta a avó. Além disso, afirmam que ela foi preenchida por uma enfermeira. “Procuramos o médico e ele tinha ido embora. A enfermeira nos informou que ele havia deixado o atestado assinado, mas não estava preenchido. Ela solicitou que aguardássemos 30 minutos, pois não poderia errar ao preenchê-lo. Isso pode?”, questiona Maria Aparecida.

“Não queremos ibope”, desabafa pai

“Nós não queremos ibope, nem exposição. Apenas desejamos que ninguém mais passe por uma situação como essa. Até sexta-feira, às 22h, minha filha estava mexendo e agora não a terei mais em meus braços. Queremos uma explicação e vamos acionar os órgãos competentes. Temos todos os exames realizados e a ficha dos atendimentos quando procuramos o hospital”, garante Fernandes.

Na quarta-feira, dia 10, o pai do bebê registrou um Boletim de Ocorrência – BO para que o caso seja investigado. “Vamos solicitar a exumação do corpinho dela”, defende o homem.

Fernandes ainda pontua que procurou a Secretaria Municipal de Saúde de Lauro Müller, que se disponibilizou a prestar assistência para a família. “A secretaria já disponibilizou um remédio para secar o leite materno, pois a Ana ainda está o produzindo, e se comprometeram a nos dar um acompanhamento psicológico”, informa.

“Foi uma fatalidade”, afirma médico

José Luiz Madeira, médico que acompanhou o Pré-Natal da gestante e que também prestou atendimento no Hospital Henrique Lage, afirma se tratar de um caso raro, uma fatalidade. “Houve um descolamento da placenta, um fato que não há como prever e muito raro. Foi uma fatalidade”, lamenta o profissional.

Ele ainda explica que nas vezes em que a jovem procurou atendimento médico não apresentava nenhum diagnóstico de trabalho de parto. “Desde o sétimo mês de gestação ela se queixava de algumas dores, mas não estava em trabalho de parto”, explica. “Ela tinha apenas dois centímetros de dilatação, sendo que a partir de quatro centímetros é considerado o início do trabalho de parto”.

Sobre o prazo para o parto, o médico observa que teria até o dia 15 de agosto, informação registrada na caderneta de gestante de Ana Paula como o prazo final para o nascimento do bebê. “O período gestacional pode ser de 38 a 42 semanas, sendo que ela estava com 40 semanas e dois dias. Tínhamos uma previsão de prazo para até o dia 15 de agosto”, frisa. “É preciso ressaltar que ela iniciou seu Pré-Natal no quinto mês de gestação. A própria caderneta dela é do Paraná, seu estado natal. Se ela tivesse começado o acompanhamento logo no início e realizado a ultrassonografia até os dois meses de gestação, teríamos um prazo mais exato para o nascimento”, informa Madeira.

Sobre o fatídico sábado, o médico pondera que, dentro das possibilidades disponíveis, toda a assistência foi prestada. “Um caso de deslocamento de placenta necessita de uma ação imediata. Ela chegou às 4h e já não conseguimos mais ouvir os batimentos do bebê. A partir disso, passamos a trabalhar para confirmar a suspeita da morte do feto. No Hospital São Donato (Içara) e no Hospital São José (Criciúma), o atendimento foi negado, pois exigiam a ultrassonografia, serviço que não estava disponível naquele dia em Lauro Müller. Então, a encaminhei para uma clínica em Nova Veneza e eu mesmo realizei o exame. Infelizmente, foi constatado o pior”, detalha. “Lamentamos muito o ocorrido. Fizemos tudo que estava ao nosso alcance”, conclui o médico.

Equipe apresentou versão condizente sobre o fato

O diretor do Hospital Henrique Lage, Diego José Cifuentes, explica que se inteirou do caso na segunda-feira, dia 8. “O fato aconteceu no sábado e na segunda-feira conversei com a equipe médica e de enfermagem que prestaram os atendimentos. Os profissionais citaram a mesma versão de que a paciente não apresentava os sintomas de trabalho de parto e que todo o atendimento cabível foi prestado”, declara.

Sobre a realização do exame de ultrassonografia na própria cidade para que o deslocamento da paciente fosse evitado, o diretor explica que há apenas o atendimento eletivo, ou seja, com agendamentos, nas quartas e sextas-feiras. “Infelizmente, não possuímos um profissional especialista disponível para emergências. O médico relatou que, no contato via telefone, como é o procedimento, o hospital de Içara teria se disponibilizado a atender. Ao chegarem lá, alegaram que só realizariam a assistência mediante a apresentação de um exame de ultrassonografia”, comenta.

Cifuentes ainda discorre sobre a possível realização de uma necropsia que foi sugerida à família após o parto do bebê.  Segundo ele, a equipe do hospital narrou que a família optou por não realizá-la. “O Serviço de Verificação de Óbito – SVO seria acionado de forma totalmente gratuita. O município o mantém por meio de um convênio. O único custo para a família teria sido o transporte até Criciúma, onde as necropsias são realizadas”, esclarece. “Independente disso, vamos fazer uma investigação administrativa da causa da morte em conjunto com o Serviço de Epidemiologia do município”, acrescenta. Já sobre o preenchimento da certidão de óbito, outro ponto questionado pela família, o diretor explica que dados como nome, endereço, entre outros, podem ser anotados por enfermeiras, sendo a causa da morte e a assinatura as responsabilidades do médico.

Referente à reclamação da família sobre a falta de uma psicóloga no momento difícil, Cifuentes explica  que o hospital conta com serviço de psicologia na ala psiquiátrica, com atendimentos realizados de segunda à sexta-feira. Durante a semana, quando a profissional é solicitada para outros casos, ela presta o devido atendimento. “Como o fato foi registrado em um sábado ela não estava no hospital”.

O diretor lamenta o ocorrido e pontua que se trata mesmo de uma fatalidade. “Desde 2013, quando foi reativada a realização de partos no Hospital Henrique Lage, 617 crianças nasceram. Esse foi o primeiro caso de óbito. Lamentamos e nos solidarizamos com essa família”, remata.

“O que mais dói é que nem o choro da minha filha eu puder ouvir”, finaliza Fernandes.

Foto: Stéphanie Piava

Fonte: Stéphanie Piava / Ligado no Sul

Foto: Stéphanie Piava
Foto: Stéphanie Piava

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