Como lidar com a dor da perda?

“A morte não espera e nem quer negociar. Não obedece ao tempo e muito menos à consciência. Aparece quando menos esperamos e derrota toda a nossa esperança e fé na vida”. As palavras são da psicóloga Viviane Sampaio. Mas, afinal, como lidar com a dor da perda? A fim de trazer a tona este tema, inevitável na vida de qualquer pessoa, a  Meu Sul entrevistou a psicóloga Denise Delpizzo, especialista em psicoterapia de perdas e luto, que falou, entre outras coisas, sobre como lidar com este momento tão difícil.

Denise, como lidar com a dor?

“A dor da perda é algo quase sempre devastadora na vida de uma pessoa. Perder a quem se ama não é fácil, e elaborar esta dor é uma tarefa psíquica com a qual o enlutado tem de lidar para o devido enfrentamento do luto e continuação de sua própria vida. É preciso que se entenda que o luto não é uma doença e tampouco é um conjunto de sintomas. O luto é uma reação normal ao rompimento de um vínculo, ele é um processo psicológico, adaptativo, de caráter singular, cada indivíduo o sofre da sua maneira. Mas ao mesmo tempo é social, pois se vive em meio aos outros. Este processo envolve reações de ordem emocional, física, intelectual, espiritual e social. E em meio a todas estas reações, o enlutado precisa cumprir algumas “tarefas psíquicas específicas” para que o processo de luto se desenvolva de modo normal. Estas tarefas se constituem inicialmente da aceitação da realidade da perda e da consequente elaboração da dor da perda; assim, buscando adaptação e ajustamento a um ambiente novo e a internalização e ressignificação da relação perdida. E por fim, cumprindo a última tarefa de adaptação e continuação da vida. Não é sem dor que este processo se desenvolve, há muitos sentimentos e emoções envolvidas e estes persistem ao longo de todo o processo de adaptação a esta nova realidade: a vida sem o ser amado. A evolução deste processo de luto vai depender em parte dos fatores de proteção que o enlutado tem a seu dispor e de suas competências psicossociais para lidar com a perda.

Então existem etapas a serem superadas?

“Sim, o processo de luto pode ser entendido como um processo de fases, não exatamente linear, que se desenvolve de forma normal ou pode se tornar um luto complicado, quando não evolui em todas as suas etapas. Estas etapas são: 1) entorpecimento:  é uma reação de defesa contra o impacto da perda, como um estado de “choque”. Há, inconscientemente, uma descrença na perda da pessoa querida, como se a perda não fosse real. Por vezes, isso transparece de forma explícita no comportamento do enlutado que tende a agir como se não houvesse o evento da perda. 2) anseio: nesta fase, aparecem tentativas de recuperar a pessoa perdida, seja através de sonhos, alucinações visuais, auditivas e até alucinações táteis (sensação de presença). Isso tudo acontece na ânsia de encontrar o seu ente querido que se perdeu. É uma fase de grande inquietação e hipervigilância, e que pode trazer explosões de raiva pelo resultado frustrado desta busca. Além da frustração, o enlutado acaba por entrar em grande stress e fadiga, pela busca tensa e obsessiva que estabelece, causando real esgotamento do indivíduo. 3)desespero: esta é a fase em que o enlutado reconhece a irreversibilidade da perda e percebe, de fato, que terá que obrigatoriamente aceitar e enfrentar as mudanças em sua vida, seu cotidiano, sua família, etc. É pura “desesperança”, o momento em que ele se dá conta de que nada pode ser salvo. Nesta fase, os sentimentos predominantes são de desmotivação, desvitalização, apatia, depressão, isolamento social. 4)Reorganização: nesta fase, há uma mescla de episódios depressivos com sentimentos mais positivos, quando o enlutado começa a demonstrar a capacidade de adquirir novas habilidades e assumir novos papéis perante esta nova realidade de vida. Há também o estabelecimento de uma nova relação com o falecido, através da redefinição de si mesmo e da sua vida”.

Chorar ajuda?

“O ato de chorar é o ato de expor seus sentimentos e emoções advindos da situação de perda. Isso é positivo na medida que dá vazão ao sofrimento intenso que se sente durante o processo de luto. Chorar, falar o que está sentindo, falar sobre a pessoa falecida, falar sobre o sentimento de impotência diante da morte, sobre a saudade, tudo isso auxilia na elaboração da perda. Porém, é preciso entender que assim como há momentos de chorar, há momentos de enfrentar, e eles se intercalam constantemente durante o processo de luto. No início do luto há maior intensidade de momentos de lamento e menor intensidade de enfrentamento e recuperação. Ao longo do processo, essa intensidades vão se alterando, até chegar ao ponto em que há maior intensidade dos momentos de enfrentamento e menor intensidade dos momentos de lamento. Como já disse, é um processo, e um processo de alternâncias, então, não linear”.

Como as pessoas ao redor podem ajudar no processo?

“Muitas vezes, as pessoas, ao quererem ajudar e confortar, acabam por aumentar ainda mais o sofrimento do enlutado. Posso explicar: dizer as tais “frases prontas”, falar para o enlutado que ele deve ter forças, ou que o ser querido está em um lugar melhor do que aqui, ou que o ser querido não ia gostar de vê-lo sofrendo, só aumentará a distância entre você e o enlutado, pois o enlutado pode se sentir “desautorizado” a sofrer sua perda. Além de que você não estará conseguindo agir com empatia. Neste momento, “colocar-se no lugar do outro” é o melhor caminho para ajudar o enlutado. As palavras ditas devem ser de apoio emocional, dar um abraço, colocar-se à disposição para cuidar das crianças da família, levar uma refeição pronta para a família, ajudar com alguma coisa efetivamente. Não se afastar, mas também não ser invasivo no sofrimento do enlutado. O correto é dar espaço e “escuta” para o enlutado falar de seus sentimentos, compartilhar a dor da perda em silêncio, amparar...”

Quanto a medicar uma pessoa que sofreu uma perda, qual a sua opinião?

“Não se trata de pensar a medicação como boa ou ruim, mas a que ela serve neste processo de luto. Se a medicação servir para abstrair o enlutado de sua realidade atual, tirando dele a consciência do enfrentamento do luto, certamente ela não será uma facilitadora do desenrolar do processo de luto. Mas se a medicação se prestar a ser um adjuvante no processo de luto, se ela for uma “ferramenta terapêutica” a ser utilizada junto ao suporte psicoterapêutico, aí sim ela estará à serviço da busca da capacidade de enfrentamento e reestruturação do enlutado”.

Qual a sua recomendação para quem sofreu uma grande perda?

“Penso que o mais importante é entender que o que se busca no luto não é uma superação da dor, mas uma reconstrução da vida, onde o ser amado que partiu, volte a estar presente em uma nova estruturação psíquica para o enlutado. É o processo em que o falecido deixa de ser o que era (real), e passa a ser um significado vital. Esta árdua “tarefa” de ressignificar  a pessoa perdida, deve, sempre que possível, contar com fatores de proteção, como: suporte social, da família, dos amigos, de grupos, e a comunidade em geral; apoio espiritual, independente de religião específica; suporte psicológico, como o apoio terapêutico e grupos de entreajuda; entre outros. E importante ainda entender que este processo não se dá instantaneamente, é um processo longo, que demanda energia e quanto mais suporte e apoio o enlutado tiver, maiores possibilidades de reconstruir sua vida”.

A psicoterapia de perdas e luto

Também conhecida como lutoterapia, a formação habilita ao apoio psicológico e aconselhamento em casos envolvendo situações de perda/luto. O suporte oferecido por esta psicoterapia específica trabalha no sentido de ajudar a elaborar o momento de crise desencadeado pela notícia de uma perda, que vai muito além da morte. “Uma doença grave é uma perda, uma amputação é uma perda, um aborto é uma perda, e assim, outras situações que desencadeiam um processo de luto em que as pessoas têm que lidar com a tristeza, depressão, stress, dor e outras emoções”, explica Denise. 

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